Arquivo mensais:outubro 2019

Passaport – A bilionária indústria global de “venda de cidadania”

Você pode nascer com uma, ganhar ou perder. E, cada vez mais, é possível obtê-la em troca de investimentos.

A cidadania de um país é atualmente um conceito mais fluido que nunca. Há 50 anos, era raro os países permitirem dupla cidadania, mas agora é quase universal.

Mais da metade das nações do mundo oferecem atualmente programas de “cidadania por investimento“. Uma indústria global que movimenta US$ 25 bilhões por ano, segundo o advogado suíço Christian Kalin.

Kalin, apelidado de “Sr. Passaporte”, é presidente da Henley & Partners, uma das maiores consultorias do mundo especializadas nesse mercado em rápida expansão. A empresa dele auxilia indivíduos e famílias ricas a obter residência ou cidadania em outros países.

Na opinião dele, nossas noções tradicionais de cidadania estão “desatualizadas”.

“Essa é uma das poucas coisas que restam no mundo que estão ligadas aos laços de sangue ou ao local de nascimento.”

O governo de Vanuatu, país insular do Pacífico, vende passaporte por cerca de US$ 150 mil

“É super injusto”, diz ele, argumentando que onde nascemos não depende de nossas habilidades ou talento — mas, sim, de “pura sorte”.

“O que há de errado em relação à cidadania como uma espécie de filiação?”, acrescenta. “E o que há de errado em admitir pessoas talentosas que vão contribuir (com o país)?”

Há quem apoie seu argumento. Mas para muitos, a ideia de que os passaportes — tão ligados à questão da identidade — podem ser tratados como mercadoria não cai bem.

Vanuatu: passaporte cobiçado

Fomos até Vanuatu, pequena nação insular do Pacífico. Desde que o país introduziu seu novo programa de cidadania há quatro anos, houve um boom de procura. Os passaportes representam agora a maior fonte de receita do governo.

Para muitos aspirantes à cidadania de Vanuatu, o principal atrativo são as viagens sem visto pela Europa.

A maioria dos estrangeiros que obtém os passaportes do país nem sequer coloca os pés no arquipélago. Em vez disso, solicitam sua cidadania em escritórios no exterior, como na PRG Consulting, empresa intermediária licenciada, com sede em Hong Kong.

Hong Kong é um dos maiores mercados de cidadania do mundo. Em uma cafeteria no aeroporto, conhecemos o agente de cidadania MJ, um empresário que auxilia um número cada vez maior de chineses a obter um segundo ou até mesmo terceiro passaporte.

“Eles não se sentem seguros [na China]”, diz ele sobre seus clientes.

“Querem acesso à Europa para abrir conta bancária, comprar imóveis ou abrir um negócio.”

A cidadania é um mercado global competitivo e, para muitos países pequenos e insulares, principalmente no Caribe — o preço de um passaporte gira em torno de US$ 150 mil. O custo de um passaporte de Vanuatu estaria no mesmo patamar.

Quanto custa ‘comprar’ um passaporte?

– Antígua e Barbuda: a partir de US$ 100 mil.

– São Cristóvão e Névis: a partir de US$ 150 mil.

– Montenegro: a partir de US$ 274 mil.

– Portugal: a partir de US$ 384 mil.

– Espanha: a partir de US$ 550 mil.

– Bulgária: a partir de US$ 560 mil.

– Malta: a partir de US$ 1 milhão.

– EUA: entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão investidos em um negócio que gere ao menos 10 empregos (os preços vão subir em novembro para US$ 900 mil e US$ 1,8 milhão).

– Reino Unido: a partir de US$ 2,5 milhões.

A maioria dos países acima tem uma modalidade de visto que concede ao investidor a residência permanente. Assim, podem pedir, depois de um período de tempo que varia de acordo com regras específicas, a cidadania e, aí então, requerer o passaporte.

Esse é o caso do Brasil. Desde novembro do ano passado, uma resolução autoriza a concessão de residência a estrangeiros que comprarem imóveis a partir de R$ 700 mil (no Norte e no Nordeste) e R$ 1 milhão (nas demais regiões).

MJ explica que é “tão rápido” arrumar um passaporte de Vanuatu (você pode obter um em apenas 30 dias) que isso ajuda a torná-lo uma escolha popular.

Mas Kalin e outros especialistas alertam que Vanuatu tem reputação de ser um país corrupto. Como resultado, a Henley & Partners e outras consultorias não trabalham com o programa de cidadania do país.

No entanto, isso não reduz o interesse da China. Há alguns anos, os canais de televisão de Hong Kong exibiram anúncios promovendo a cidadania de Vanuatu, visando ao fluxo constante de visitantes do continente.

Mas afinal quantos clientes chineses realmente visitam Vanuatu, após receberem a cidadania? Talvez um em cada 10, estima MJ.

Contexto histórico

Porto Vila é a capital de Vanuatu e uma cidade de contrastes. As estradas estão frequentemente alagadas e cheias de buracos. Não há um único semáforo, mas o congestionamento está piorando graças ao número crescente de carros novos com tração nas quatro rodas.

É um paraíso fiscal e, recentemente, voltou à “lista negra” de países da União Europeia sobre transparência e corrupção.

O povo do país — conhecido como Ni Vanuatu — está espalhado por mais de 80 ilhas.

Mas só foram reconhecidos oficialmente como cidadãos em 1980, quando o arquipélago alcançou a independência. Anteriormente, o território se chamava Novas Hébridas, sob administração anglo-francesa.

Menos de 40 anos atrás, eles eram apátridas. Um fato que não passou despercebido pelo ex-primeiro-ministro Barak Sope.

“Eu não tinha passaporte até 1980”, diz ele, sentado em um hotel-cassino na estrada principal de Porto Vila.

“Tive de viajar com um pedaço de papel que os ingleses e franceses me deram. Foi humilhante.”

Sope considera uma “traição” que Vanuatu venda sua cidadania e aponta para a enxurrada de investimentos chineses na região.

“Os chineses têm muito mais dinheiro que nós”, diz ele, exasperado.

O investimento chinês é criticado por moradores locais como Sope, que se queixam de que as empresas da China ficam com todo o dinheiro e só empregam mão de obra chinesa.

Política controversa

O governo de Vanuatu — um dos três países do mundo em que as mulheres são totalmente excluídas da política — não quis falar com a BBC sobre seu programa de cidadania.

Mas localizamos um agente de cidadania nomeado pelo governo, Bill Bani, que explica seu ponto de vista em relação à iniciativa.

“Temos de olhar para Vanuatu em uma escala global”, diz ele.

“Outros países vendem passaportes para ganhar dinheiro, não temos muitos recursos naturais. E isso está trazendo muito dinheiro para Vanuatu.”

Mas para a população predominantemente rural, a política tem sido altamente controversa desde a introdução do programa em 2015.

Anne Pakoa, uma líder comunitária, nos leva a uma típica vila formada por barracos de chapa de ferro ondulada. Fica a apenas a 10 minutos de carro das lojas e restaurantes da capital, mas parece um mundo de distância.

Segundo ela, as comunidades locais não estão vendo a cor do dinheiro das vendas de passaporte, apesar das promessas de que o plano reconstruiria a infraestrutura e as casas devastadas após a passagem do ciclone tropical Pam em 2015.

“Nossos ancestrais morreram pela nossa liberdade. Agora as pessoas estão carregando o mesmo passaporte verde que eu carrego? Por US$ 150 mil? Onde está esse dinheiro? Acho que isso tem de parar”, diz ela.

Susan, outra moradora da mesma vila, mostra um poço com água contaminada.

“Quero que o governo forneça uma torneira de água corrente para que as crianças tomem banho e bebam água limpa e segura”, afirma.

Diante da crescente demanda do mercado chinês, Dan McGarry, que dirige o jornal local, acredita que é difícil imaginar qualquer mudança nessa política no curto prazo.

De acordo com ele, as vendas de passaporte representam atualmente mais de 30% das receitas do país.

“Para um país minúsculo como o nosso, isso é um grande negócio. Mas temos de nos perguntar: É por isso que lutamos? É certo? É correto vender nossa soberania conquistada com tanto esforço para quem oferece o maior lance?”

Essa é uma questão que muitos países, não apenas Vanuatu, terão de responder diante de um mundo cada vez mais globalizado.

Mas Kalin, da Henley & Partners, diz que “a cidadania por meio de investimentos e programas de migração por investimentos não passam de um reflexo de um mundo onde tudo se tornou mais fluido.”

De Uber a Nubank: as empresas que valem bilhões, mas nunca registraram lucro

Lucro ou prejuízo. A última linha da Demonstração de Resultados do Exercício (DRE) das empresas traz um dos números mais repercutidos entre os analistas de mercado quando as companhias abertas divulgam seu desempenho a cada fim de trimestre.

Ela calibra projeções de curto ou médio prazo para as operações e é um indicador da saúde financeira do negócio.

Para algumas empresas, entretanto, a lógica é outra. Algumas companhias avaliadas em milhões (ou bilhões) de dólares nunca reportaram lucro. A lista está cheia de nomes conhecidos: Uber, a gigante de compartilhamento de escritórios WeWork, a Tesla, que já ficou alguns trimestres no azul, mas não um ano fiscal inteiro – situação parecida à do serviço de streaming de música Spotify. O microblog Twitter registrou a primeira sequência de quatro trimestres de lucro em outubro do ano passado, mais de uma década depois de criado.

Entre as brasileiras há o Nubank – também membro do clube de “unicórnios” do país, companhias que valem mais um bilhão de dólares.

Lá fora, algumas chegam a ir para a bolsa no vermelho. Um levantamento do professor da Universidade da Flórida Jay Ritter apontou que 81% dos 134 IPOs (“Initial Public Offering” ou oferta pública de ações) realizados nos Estados Unidos em 2018 foram de companhias que registraram prejuízo nos 12 meses anteriores à abertura do capital.

Na série histórica que começa em 1980 só foi registrado número parecido no início dos anos 2000, período conhecido como o da “bolha do pontocom”, quando a internet estourou como negócio.

O que explica isso?

‘Padrão’ Amazon
“Elas valem tanto primeiro porque as pessoas que investem nessas empresas acreditam que elas tenham potencial para gerar muito dinheiro no futuro e, mais importante, porque elas acreditam que podem vender (sua participação) para outra pessoa por um preço ainda mais alto”, escreveu à BBC News Brasil o professor da Universidade de Nova York (NYU) Aswath Damodaran, um dos maiores especialistas em “valuation” (termo da contabilidade para o processo que estima o valor de um negócio) do mundo.

Os setores são os mais diversos, mas as companhias geralmente têm um fator em comum – muitas são inovadoras ou “disruptivas”, no jargão do mercado.

“É uma aposta de longo prazo, em como vai ser o mundo daqui a 20 anos”, explica a professora do Insper Andrea Minardi.

No caso da Uber, por exemplo, a aposta seria de que as próximas gerações vão cada vez menos querer ter um carro na garagem – aumentando a base potencial de clientes para os aplicativos de transporte.

A empresa de tecnologia e transporte estreou no mercado em 2010, debutou na bolsa de Nova York em maio deste ano com valor de mercado de US$ 82,4 bilhões e nunca conseguiu registrar um trimestre de lucro sequer. No prospecto divulgado por ocasião da abertura de capital, um documento com mais de 300 páginas, afirmou que talvez nunca fosse rentável (leia mais sobre o caso da Uber abaixo).

A inspiração para muitos desses modelos de negócio é o caso de sucesso da Amazon. Depois de abrir o capital em 1997, a hoje gigante do e-commerce levou 24 trimestres – 6 anos – para registrar o primeiro de lucro.

A empresa seguiu divulgando resultados modestos pelos 14 anos seguintes, entre 2003 e 2016, até atingir o patamar atual de lucros – que ainda é “pequeno” se comparado ao crescimento exponencial da receita, ressalta o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Gilberto Sarfati.

Para efeito de comparação, no último trimestre fiscal a Amazon reportou lucro líquido de US$ 2,63 bilhões, ante US$ 10 bilhões da Apple.

Isso porque a empresa, especialmente seu fundador, Jeff Bezos, acredita que o negócio tem que manter um nível elevado de investimentos – inicialmente para construir sua base de clientes, hoje para desenvolver novas tecnologias e se manter inovadora.

Essa é a lógica de uma série de empresas “queimadoras de caixa”, especialmente aquelas em que o modelo de negócio tem uma margem de lucro pequena e depende de uma base grande de clientes para fazer dinheiro.

Companhias como o iFood, por exemplo, abrem mão de receita ou gastam para expandir ao máximo e o mais rápido possível o número de usuários – dando descontos e outras gratuidades, por exemplo, diz Fabricio Saad, coordenador de cursos de MBA da ESPM.

A reportagem procurou o aplicativo de entrega de comida, mas a companhia não respondeu às perguntas enviadas e não confirmou se a operação gera lucro.

No caso da Uber, até hoje as viagens são “subsidiadas”, ou seja, elas consomem mais dinheiro do que geram.

“Muitas dessas empresas precisam ter uma base grande de clientes para se tornarem relevantes e, para aumentar a base, você precisa de incentivos”, diz o pesquisador de inovação.

É a ideia do “winner takes all” (“o vencedor leva tudo”), explica Minardi, do Insper: aquele que conseguir dominar o mercado primeiro e fazer sua marca ser lembrada, se tornar parte do dia a dia dos clientes, em tese tem maior chance de sobreviver.

Além da Amazon, Paul Condra, analista de tecnologias emergentes na PitchBook, cita exemplos como o do serviço de streaming Netflix ou do Facebook, que passaram a gerar lucro depois de muitos trimestres no vermelho.

Quem faz essa aposta?
Além de inovadoras, as start-ups de milhões (ou bilhões) têm outra característica em comum: a maioria recebeu uma injeção generosa de capital que veio de fora da operação.

Cada fase do crescimento da empresa tem um perfil específico de investimento. O chamado “capital semente” e os investidores-anjo entram quando ela está dando os primeiros passos.

Depois vêm os fundos de venture capital, que fazem aportes mais vultosos ainda na fase em que a empresa está começando a se desenvolver.

Mais para frente entram os fundos de private equity, que, além de comprar participação, muitas vezes também participam ativamente da gestão do negócio.

Cada uma das categorias financia patamares de expansão do negócio. O venture capital, por exemplo, entra para tentar fazer a transição da start-up para uma fase mais madura, de “scale-up”, explica o professor Gilberto Sarfati, da FGV.

O dinheiro vem em sua maioria de investidores institucionais – conjuntos de empresas privadas, family offices (famílias com patrimônio elevado) e até fundos de pensão, diz o economista.

“Vai ser uma parte pequena, mas os fundos de pensão também alocam parte dos recursos em investimentos de mais alto risco.”

E quanto mais cedo o investimento, maior o risco – mas também os retornos. Os fundos ganham dinheiro vendendo a participação na empresa, inclusive por meio da abertura de capital, quando ela passa a valer muito – e isso independe do fato de o negócio dar lucro ou não.

Assim, os pouco mais de 100 IPOs de empresas “com prejuízo” nos EUA em 2018 renderam alguns milhões de dólares para os que as levaram até ali.

A professora Andrea Minardi ressalta que o volume de recursos levantados pelos fundos de venture capital atingiu novos patamares nos últimos anos, com destaque para o japonês SoftBank. Em 2016, seu Vision Fund captou cerca de R$ 100 bilhões, entre recursos próprios e de terceiros, como o fundo de investimento da Arábia Saudita.

Neste ano, anunciou o Vision Fund II, de US$ 108 bilhões. Entre as mais de 70 empresas que já receberam recursos do SoftBank, pelo menos três delas estão no Brasil: o app de entregas Loggi, a fintech Creditas e o Quinto Andar, de aluguel sem intermediários.

“Esses investidores sabem que um percentual grande de empresas vai quebrar, mas um caso de sucesso, sozinho, pode trazer de volta até 80 vezes o capital investido”, pondera Minardi.

‘Seria um grande erro estratégico pararmos nosso crescimento’
Desde que nasceu, em 2013, o Nubank já captou US$ 820 milhões em sete rodadas de investimento.

Mais recentemente, a empresa passou a acessar outras modalidades de financiamento – foram duas captações por meio de Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDC) e outra com a emissão de Letras Financeiras.

À BBC News Brasil, o banco afirmou que parte dos recursos foi usada para financiar as operações de crédito e parte no desenvolvimento dos produtos e serviços, usados hoje por 13 milhões de pessoas em todo o Brasil – 70% com menos de 36 anos.

A expansão já entrou na fase internacional. Um escritório de engenharia foi inaugurado em Berlim em dezembro de 2017 e o banco está lançando operações no México e na Argentina. São mais de 2 mil funcionários.

Por e-mail, a empresa afirmou que o prejuízo é uma opção. Segundo ela, o banco gera caixa desde 2017 e já tem um modelo de negócios sustentável. “Como nossas safras de clientes são rentáveis, o lucro poderia vir a qualquer momento que a gente decidir desacelerar o crescimento.”

“Porém, entendemos que ainda existe uma oportunidade de mercado muito grande e seria um grande erro estratégico pararmos o nosso crescimento.”

A oportunidade, para a companhia, são as “milhões de pessoas” no Brasil e em outros países que “ainda sofrem com serviços bancários ruins” ou que nem mesmo têm acesso a serviços financeiros.

“Nossos investidores concordam com isso e apoiam esta decisão. Por enquanto, não temos intenção de mudar a estratégia.”

No primeiro semestre de 2019, o prejuízo foi de R$ 139,5 milhões, bastante superior aos R$ 50 milhões registrados no mesmo período de 2018. A receita bruta, em compensação, dobrou, para R$ 1 bilhão.

Para avaliar seu desempenho – já que o lucro não é medida de sucesso -, o banco olha para uma série de indicadores: a “rentabilidade das safras de clientes” (que vem do uso de produtos como o cartão de crédito, a conta corrente e o programa de pontos), geração de caixa, índices de inadimplência, índices de atividade de cliente e indicadores de satisfação de cliente.

Fim do ciclo?
Paul Condra, da PitchBook – empresa de pesquisa que trabalha com uma grande base de dados sobre mercado de capital privado -, avalia que o “sentimento do mercado”, entretanto, vem mudando e que o cenário caminha para uma maior “racionalização”.

Cada vez mais os investidores se perguntam se o modelo de negócio é de fato rentável e se é possível enxergar o lucro, ainda que em um horizonte mais distante, diz ele.

O pano de fundo para a “cautela” maior, avalia o analista, é a desaceleração da economia global e a possibilidade de uma recessão nos Estados Unidos no médio prazo. Além das dúvidas sobre o futuro de unicórnios que ganharam grande visibilidade nos últimos anos – Uber e WeWork, por exemplo.

As ações da Uber vêm perdendo valor desde o IPO em maio, tendo encostado poucas vezes no preço que atingiram na ocasião da oferta inicial.

Os desafios que cruzaram o caminho da empresa foram vários, desde o aumento da concorrência – já que seu modelo é mais facilmente replicável do que o da Amazon, por exemplo – e problemas com a regulamentação do aplicativo em diversos países até uma questão reputacional, com escândalos internos (denúncias de assédio sexual por funcionários, por exemplo) e o debate sobre a “uberização” do mercado de trabalho – a tendência global do aumento da participação de autônomos, com menor acesso a diretos trabalhistas.

No caso do WeWork, destaca Sarfati, da FGV, que anunciou neste ano a intenção de abrir o capital, a empresa não conseguiu convencer o mercado de que valia tanto quanto julgava inicialmente. O objetivo era alcançar valor entre US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões com o IPO, conforme noticiado no início de setembro pela agência Bloomberg.

O mercado começou a questionar o número à medida que uma série de questionamentos sobre a operação foi levantada. Parte dos imóveis alugados pela WeWork, por exemplo, pertence a seu fundador, Adam Neumann.

Sua esposa, Rebekah, também está envolvida na operação e, de acordo com o prospecto preliminar do IPO, poderia indicar o sucessor do marido caso ele não pudesse desempenhar suas funções.

Pressionado por investidores, no último dia 24 de setembro Adam renunciou ao cargo de CEO e sinalizou mudanças na operação em resposta às críticas.